terça-feira, 3 de agosto de 2010

A Lembrança Sustenta!

A inconstância da vida traz momentos onde é desejado deixá-la. Há dores que não se curam com os anos. Há sentimentos que não se vão com o afeto. Existem pessoas ao seu lado para te ajudar, mas que não conseguem lhe enxergar. Estava eu, só, a tomar um café na minha cidade que tão bem conhecia; Mas me sentia tão desconhecida por ela. As pessoas que passavam ao meu lado não me tinham como pedaço da vida. Aquele lugar independia de mim.
Fui passeando pelos arredores. Reconhecia as árvores, sabia o caminho, percebia o sol no meu rosto. E todo esse conhecimento adquirido pela convivência e pelo costume de repente parecia sem sentido. Não parecia mais existir. Adentrei uma estrada nova. Uma calçada recém feita para cortar caminho à quadra. Cortar caminho. Cortar caminhos para quê? Por que a pressa? Se viver é exatamente ir em frente, sem atalhos!
O que será, será; Já dizia aquela canção. E viver o que há de ser é que é simplesmente incrível. Não podemos moldar sozinhos todo nosso futuro. Olha só, aqui estou eu passeando por um caminho criado por terceiros, sem minha aprovação. Decidi caminhar por aqui, como poderia ter escolhido outro caminho que outro construíra. Ou poderia construir meu próprio caminho. Mas não poderia impedir outros de quererem cruzá-lo com o seu próprio cimento ou com sua presença. Nem gostaria. Bifurcações nos enchem com maiores possibilidades. E as pessoas que aparecem no caminho acrescentarão alguma coisa, nem que seja uma mera reflexão.
Minha melancolia vai me forçando a andar mais lentamente. E um vazio toma conta de mim. Nada de carência, mas uma revolta de não saber ser o mundo. De não conseguir ser completa. De simplesmente quietar-me e não fazer de mim tudo que eu poderia. Será que minha vida faz sentido? Será que em algum momento ela já fez? Será que algum dia fará? É tão difícil pra mim responder, sendo que nem sei que sentido procuro, nem se realmente existe algum...

Paro por um momento. Uma canção toma conta da minha cabeça. Uma canção de ninar. Uma lembrança da infância. Vi vários sorrisos. Lembrei-me de brincadeiras. Vi-me a acreditar em fadas. Senti olhares de amor direcionados a mim. Vi-me correr ao vento. Senti de novo o mar pela primeira vez batendo nos meus pés. Notei teus dedos entrelaçados nos meus, tuas coxas em contato com as minhas. Vi-me dançar com diversos pares. Lembrei de coisas belas que escrevi com urgência apaixonada. E como tantas pessoas já me fizeram sorrir. Voltei para debaixo d'água, indo em direção à queda que, apesar de tudo, costumava formar lindos arco-íris.
E foi aí que percebi tão claramente que são as lembranças que sustentam a vida, quando o presente e o futuro se mostram tão incertos.

[E percebi também que todo meu sentido de ser dependia de eu continuar a andar, no caminho que eu mesma escolhi.]

Um comentário:

Renato Mateus disse...

Texto inspirador.Tenho meus devaneios e escrevo amadoramente, se quiser visitar.

http//rascunhosdeamador.blogspot.com