segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Volte. (Mas pra quê?)
Às vezes rio de tudo que me diz. Desculpe-me você, por não conseguir acreditar em mais nenhuma palavra do que diz. Não que seja falsidade. Acredito na sua verdade. Mas sei que sua verdade não é essa, por mais que você quisesse que fosse. Me diz, o que escuta agora? Estou voltando com a comida. Escuta meus passos da subida? Vou subir não pra me despedir, vou ficar. Amo-te, não se esqueça. Subo pra te fazer perceber, mais cedo ou mais tarde, que quem quer se despedir é você.
domingo, 23 de agosto de 2009
"Que onda que dá..."
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
"I'm a pretty impossible lady to be with..."
Foi até o banheiro, maquiou-se e colocou uma roupa colorida e um tênis surrado marrom. Colocou seu violão nas costas, e saiu. Já fora de casa, ia andando sem ter pra onde ir. Tentava adivinhar para que lado ir, com sua intuição. Conforme a energia que a rodeava, ela deveria virar para a direita. Deveria caminhar até a rodoviária, e pegar o ônibus azul. Adormeceu. E aí, encontrou André. Ele chegava e a beijava e, pela primeira vez, Flávia correspondia.
Abria seu violão, e tocava uma música nova a qual não identificava. André a acompanhava, na gaita. E num desejo imenso, Flávia doou seu corpo pela primeira vez. Deixou-se entregue. Tudo e qualquer coisa que já os tivesse chateado, qualquer decepção, qualquer distância... Parecia não existir mais.Voltou para casa com a respiração lhe faltando. Fazia força para conseguir andar. E ao deitar-se na cama, sentia-se sem defesas. Como se um sonho a tivesse vencido. E o fantasma do que aconteceu a perseguia. A grande descoberta dela era essa, a possibilidade de sonhar e guardar dentro de si o que não permitia levar para fora. Recolhida na cama, abraçou-se. Amaria por dentro, escondida, para sempre. Não só André, mas também todos os outros que já passaram por sua vida, e outros que ela ainda estava por encontrar. E por fora permaneceria sempre só, porém completa, preenchida por seus sonhos.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
À Alice pertenço, e ela à mim.
Vontade de fazer parte. Ela gostaria de olhar pro mundo e se sentir uma peça do quebra cabeça. Ela pensava que todos os outros pareciam ser tão essenciais...
Talvez um pouco de inveja? Talvez... Mas eu, pessoalmente, não achava que podia ser isso. Eu com meus sentimentos a flor da pele, bem diferente dela, tentava analisá-la. Achava-a incrível. Como podia? Aquela mulher tão atraente, pelo menos para mim, ser assim tão distante? Eu várias vezes duvidava da sua existência. Mas como? Eu sempre a encontrava, em tudo que é canto, não importava onde ou quando. Nem sei se algum dia ela se deu conta da minha presença, talvez lhe faltasse também percepção. Enfim, eu a observava como se ela pertencesse a mim. Incrível como a gente é capaz de criar esses sentimentos possessivos dentro da gente. Quero dizer, a gente, menos ela. Alice não podia ser possessiva, pois a ela nada pertencia.
Eu a observava com pressa de compreendê-la. Mas de nada adiantava. É claro que ela, sendo Alice, nunca facilitou minha busca. E se facilitasse, eu não estaria mais a procura, se o que me faz ir atrás é justamente essa paixão pela impossível esperança de completar a tarefa. Percebo-me louca correndo atrás de alguém que nem mesmo me vê. Ela some por uns tempos, e quando me dou conta me sinto tão culpada... Como se de certa forma ela sentisse falta da minha preocupação, do meu olhar. Será? Será que consegui que ela sentisse minha falta? Ora, mas quem sumiu foi ela! Como alguém que nada tem, pode dar tanta coisa a um outro alguém? Como será que ela consegue me dar tantos presentes... Essa vontade de viver nem que seja pela graça do mistério, nem que seja só por ela.
Ela conseguiu o que queria, mesmo que tivesse sido inconscientemente, ela conseguiu. Agora ela tinha um papel indispensável para mim, já não imaginava minha vida sem ela. Não a amava. Necessitava. A simples existência dela era que me mantia em pé. E pensei em revelar-lhe que encontrei seu papel indispensável, sua importância em todo o quebra-cabeça, que por mais egoísta que possa parecer, era a minha própria existência. Mas não, percebi que se o fizesse, estaria destruindo sua busca, que era como a minha. E se fosse tão forte quanto, ela poderia até cair, como eu cairia. E como também cairia, caso ela caísse. Mas nada em mim tira a satisfação de vê-la com seu desejo cumprido, por mais ignorante que ainda a quisesse manter. Obrigaria-me a tê-la sempre comigo, pois me senti também responsável por sua vida como ela se tornou pra mim. Quanto a mim, e o resto da minha vida... Existo? Bom, o que posso dizer? Criei-me inteira para salvá-la.
É difícil.
Penso nisso por uns minutos e encanto-me com a idéia, vejo todo meu futuro feliz com minha busca incansável e atenta. Mas a vida me prega mais uma peça e me manda lembranças, e eu lembro. Agora tenho na cabeça tudo que veio antes da minha busca que ainda não aconteceu. E olho pra isso tudo com tanta indiferença, até com certo asco. E me vem uma vontade de maltratar a vida que já me maltratou tanto. Criaria um ciclo vicioso, e eu e a vida entraríamos nessa guerra uma querendo atingir à outra. Não. Preciso largar esse ciclo desde já, parar de brigar com a vida, e deixá-la dar as caras e pedir desculpas. Vou ali comprar pão. Decido fazer um lanche gostoso com maionese e orégano; ela ficará tão feliz, penso. E me dói, me dói perceber que a borboleta passou pela rua e provavelmente nunca mais a verei. Sinto-me uma traidora dentro de um romance escondido com uma borboleta azul que agora sobrevoa todos os meus sonhos. E continuo, continuo, sem mais brincar com a vida. Entramos num estágio de compreensão mútua, tento entendê-la ao invés disso. Eu preciso continuar em pé e lidar com as coisas como são. Mas juro, ah! Juro... Se a minha borboleta passar pela janela uma segunda vez, despeço-me da minha vida e corro atrás da dela.

Foto: Mauricio Kubo
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Todo o tempo do mundo
sábado, 4 de outubro de 2008
Vento. (porque não precisa de nada além disso)
Naquele dia a nostalgia já havia tomado conta de mim desde o início da manhã. Trouxe-me uma alegria triste, um otimismo desesperador, que me deixava dúvidas se era real ou não. Estava bem, assistindo TV com meu irmão na sala. Nós dois juntos no mesmo cômodo era uma coisa bem rara desde que ele completara 15 anos. Agora, quem estava com 15 era eu, e queria fazer as coisas de um jeito diferente. Apesar de não termos nos falado muito, as poucas palavras trocadas valeram muito mais que o silêncio, e renderam vários sorrisos.
Eu estava ali, já agoniada, quando o interfone tocou. Era o Alan, falando para eu descer. Quanto tempo não o via! A saudade era imensa e minha empolgação também. No meu quarto coloquei uma roupa quente para a ventania que estava do lado de fora, e desci para dar um abraço
Abracei-o como havia planejado, e ele retribuiu do jeito que eu havia imaginado. Trocamos palavras amigáveis e logo eu quis saber o que ele estava fazendo por ali. Ele me disse que estava esperando sua mãe, que tinha ido comprar umas roupas ali perto. Ao tomar consciência da brevidade daquela visita, segurei suas mãos e puxei-o até um gramado entre a minha quadra e a do lado. Nós nos sentamos, e o vento aos poucos nos fez levantar a cabeça, como se tivesse pedindo permissão para passear por nossos cabelos. O cabelo de Alan é loiro e longo, um pouco abaixo dos ombros; o meu era um pouco mais curto, e bem liso, ia para o alto, e os fios seguiam uma sincronia que pareciam estar sendo penteados pelo ar! Nós nos levantamos e abrimos os braços, como se nossa mente fosse uma só.
-Vamos girar? – Alan me perguntou sorrindo.
Eu não respondi, só segurei firme suas mãos, e comecei a girar loucamente, conseguimos nos manter em equilíbrio por muito, muito tempo. Estávamos ali mesmo, entre duas quadras, perto de várias calçadas aonde as pessoas iam e vinham da parada de ônibus. Não sei se olhavam para a gente... Eu não estava nem um pouco interessada em olhar para elas, de qualquer jeito. Havia algo bem mais importante acontecendo. O vento abraçava a gente, nos sustentava, até que nos soltou, e caímos na grama, rindo tanto e tão alto, como se nunca tivéssemos nos sentido melhor.
-Alan, isso é incrível! Por que a gente nunca tinha feito isso antes?
Ele não soube me responder. Ao invés disso, começou a correr e me fez segui-lo. De repente, me puxou para outro abraço, e falou que ia encontrar sua mãe na comercial.
-Tá bem, então vai lá. Bom vento!
-Ótimo vento pra você, também! Te amo!
Então ele foi embora, e eu segui para casa. No caminho, me senti grande, e tão, tão bem, que achei que nada mais poderia me abalar. Fiquei ainda com aquilo em mim, até que olhei no relógio e eram 16:01:36.
