terça-feira, 6 de julho de 2010

Lembrança.

Lembro bem daquele dia, um tempo atrás. Quando nos cruzamos na calçada e você me sorriu. Minhas pernas ficaram bambas, e meu corpo hesitou. Foi você que chegou e abraçou-me. Derreti-me. Pensei que poderia cair, desequilibrada. Tentei manter a naturalidade. Enquanto conversávamos, acendi um cigarro. Caminhamos juntas até a parada de ônibus. Menti, disse que não tinha pressa. Fingi que não estava indo pra lugar algum, só para poder acompanhar-te. Via nos seus olhos um sorriso maroto, uma satisfação grande de me ter ali por perto. E eu, bem quieta, às vezes fugia dos seus olhares só pra não me sentir tão descoberta.
Acho que você acabou esquecendo a importância de suas aulas também. Me convidou para um café. Fomos, caminhando e conversando. Adoro quando paro pra pensar em tudo isso. Aquele dia é talvez um dos que mais gosto de recordar. Dizia-me que me adorava e eu ria nervosa sem saber como fazer-te entender tudo que eu sentia além disso. Passamos todo o dia juntas. Você me encantava com suas risadas e jeitinhos. Eu lhe entregava todo meu afeto e atenção. Esquecemos do resto e estávamos completamente ali. Sozinhas, completas, felizes com toda aquela névoa entre nós que excitava e trazia uma curiosidade deliciosa.
Foi bom todo o tempo em que ainda nos sentíamos assim, nesse dia e em todos os outros. Tudo o que veio adiante foi ótimo. Até os momentos mais infelizes, até quando eu sentia que estava tudo mal. Acontece que tudo fez parte de um conjunto maravilhoso de sentimentos intensos e de emoções transbordando. Um ano inteiro se passou e eu nem sei como tudo pode ter acabado tão mal.
Todas aquelas brigas e todas aquelas crises... Sei que errei, mas não fiz por mal. Tentei resolver e queria, queria muito. Mas me descontrolei com tudo que me disse. Tudo aquilo que me disse com suas emoções à flor da pele. Não cobro de ti que tivesse tido cuidado, eu entendo. Mas ah, pobre de mim, também tenho emoções. Senti raiva. Falei outras coisas horríveis de volta. E assim, como num ciclo vicioso, nos atacamos facilmente por conhecermo-nos tão bem. Você saiu da minha casa com a cabeça erguida decidida a não mais voltar. E eu encolhi-me no meu quarto decidida a não mais te procurar.

Hoje, naquela mesma calçada de tanto tempo e lembranças, te vi passar. Não tive como saber se me via. Seus óculos escuros escondiam seu olhar. Te vi, e tive a vontade impulsiva e boba de acenar, de caminhar até ti, educadamente. Não senti mais nada. Você passou e te vi apenas como um rosto conhecido. Deu-me medo, quando percebi. Senti-me fria. Nada de sentimentos, nada de emoções. Distância. Sim, como se você que passava não fosse mais a mesma que passava também por ali há tanto tempo atrás. Decidi virar a cabeça e fingir pressa, dessa vez. Idiota, eu sei. Mas eu preferia continuar contigo como te lembrava do que suportar uma nova-você agora te desconstruindo por dentro de mim.

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