terça-feira, 1 de junho de 2010

Um jardim para uma amizade.

Seu amigo sempre fazia assim: Segurava sua mão e apertava com força. Uma força sólida, cheia de energia. Ela se sentia sempre bem com a aspereza da mão dele, e com a força. Ele a puxava para longe e contava a ela sobre a chuva. Aquela chuva fininha que caía àquela tarde. Cada pingo de chuva, nesses momentos, ganhava novo significado. Eram como os flocos de neve dos desenhos. Ela conseguia ver a olho nu todos os detalhes daquela mínima partícula d'água.
Ele olhava pra ela e via no reflexo dos seus olhos um jardim imenso onde sabia estar construindo uma grande amizade. E então continuavam conversando. Conversavam sobre decepções que ambos tinham. E conversavam sobre o que infelizmente acabavam esperando das outras pessoas. Conversavam principalmente sobre coisas um do outro. Porém nunca sobre algo dos dois; até porque não tinham nada a dizer. Eram almas distantes que se juntavam ao se encontrar. Entediam-se. Conseguiam, ambos, ver e entender o que diziam. Estavam lúcidos. Estavam incrivelmente lúcidos. Enxergavam a realidade claramente, com a ajuda um do outro. Estavam tão cheios de lucidez, que encontravam metáforas para disfarçá-la. Para deixar as coisas mais bonitas.
Aquele aperto de mão e toda a compreensão que existia entre os dois deixava-a calma e mais tranquila. E aí só desejava que a chuva não aumentasse, porque tempestades costumam destruir jardins. Mas aquela chuvinha era mais uma garoa passageira, que por enquanto só ajudava a regar as flores.

Que bom - dizia ela baixinho com o olhar.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Meu pote de geleia vazio eu deixei cair.

O pior é que você não me dá chance de fazer nada além de imaginar. E imagino tanto, tanto! Crio uma fantasia inteira em cima de uma pista que seja. Alice, Alice, te amo. Você veio de longe e surgiu de repente. Nunca imaginei que pudesse existir alguém assim, me fascino. Incrível como é, como pode estar do meu lado por boa vontade? Desde que chegou, me perguntava porquê é que teria surgido tão perto de mim. Mas o que mais me assusta é que tenha continuado nessa posição.
Sei que escreve cartas para o vento. Não as entendo. Tento, mas não dá. Durante todos esses meses intensos que temos passado, eu não consigo enxergar. Ou melhor, enxergo o que eu quero, e você gosta disso. Pena que não eu.

Desculpa

Não queria precisar de certezas. Eu queria saber viver com as mesmas incertezas que te cercam. Eu queria mesmo poder pular na toca do coelho e não me preocupar com a gravidade. Mas eu, infelizmente, sinto a necessidade de ao menos tentar calcular se o destino vale a dor da queda.

No momento, encontro-me indiposta, simplesmente.

domingo, 14 de março de 2010

O Circense.

O movimento deles me encanta. Eles estão preso àquele longo fio, sim. Mas tão fino. Como podem? Como eles conseguem se contorcer e girar no ar sem medo? Será que está além da minha capacidade ou tenho meios de fazer isso também? Porque eu quero, quero sim. Eu quero segui-los na loucura total de ter apenas a mim mesma como ponto de equilíbrio. Quero girar em volta do meu eixo e ver até onde chego. Como eles conseguem? Devem treinar desde moleques. Só? Será só essa a diferença entre eu e esses seres mágicos?
AH! Como eu amo o circo. Não há nada mais lindo que um artista de circo. Eu fico ali embaixo daquela tela com minha cabeça virada pra cima, seguindo seus movimentos. Faço isso desde pequena. Mas nunca tive coragem de tentar. Por que, se eles já dão conta do recado? Melhor não dar voz á minha prepotência e achar que tenho chance. Eles estão acima de mim. Caso contrário, eu não teria nunca virado minha cabeça pra cima. Eu só olharia pra baixo, de longe. Observaria o mundo de outro ângulo. Pelo menos olho pra cima quando estou tão embaixo, penso. Se olhasse ainda mais pra baixo estaria perdida, não daria conta de lidar com a vida.
Minha fuga é o circo. Minha única chance está no circo. Minha vida toda depende do circo. Depende da existência do circo. Depende de cada sorriso, de cada palhaço. De cada longa cordinha que segura aqueles seres (humanos?) pra longe de mim. Se não existissem os artistas de circo, não teria pra onde olhar, não teria pra onde correr.
Mas pra onde os artistas de circo fogem? Enquanto eu limpo as paredes e armo o cenário, a rotina deles é estar no ar, é carregar a alegria de um público empolgado, exigente. Não adianta.. Tudo que vira rotna já não é mais tão mágico. É triste pra mim pensar que vez ou outra tem um equilibrista que devia estar em outro lugr. Afinal, seus filhos crescem, fazem festas, se casam... E os pobres, presos, precisam do palco. Não pra assistir e se deixar levar. Precisam daquilo pra se sustentar. O dinheiro. Será que tira a magia do srtista de circo?
Imagino mesmo que não, ou espero que não. Só o que imagino é que o ar naturalmente já proporciona uma visão melhor, uma grandeza. Estar no ar. Que capacidade incrível. Mas se o ar é natural pra eles, será que eles ficam olhando lá de cima para nós, pensando como é incrível podermos levar nossa vida sem a mágica daquilo? Será que eles percebem o que nós não percebemos? De cima, eles devem ver melhor que nós.
Um chegou pra mim uma vez e riu. Não pude reprovar. Só perguntei "Por quê?" e ele "Vocês gastam seu tempo olhando pra nós, e esquecem de olhar a si mesmos." Fiquei surpresa "Enlouqueceria", eu disse, "Se olhasse pra essa prisão". "Eu passei a maior parte da minha vida olhando para o chão, e nunca enlouqueci. E olha que do ar eu nem consigo perceber toda pétala de flor."

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

R-OH

O álcool. O etanol que engolimos por vontade própria. A droga que nutre a sociedade. A droga que nutre, sim. Destrói, também.
É esta mesma droga que te mantém vivo que me faz morrer aos poucos. E eu nem mesmo preciso que ela desça pela minha garganta. Basta escutar teu sofrimento. Quando saímos juntos, humano, o seu olhar de desprezo seguido por um gole de cerveja faz-me gelar. Fria, sólida, paralisada, fico te observando sem poder te ajudar. Logo, acendo um cigarro e viro um copo inteiro de cerveja. Sim, quero ver se sabes competir comigo. E sem competição, apenas com ignorância, desprezo e distância, seu olhar cruza o meu uma outra vez. E eu sinto nos lábios e no meu pescoço (e depois em meu fígado, meus rins e até nos ossos) a solidão que é ser você. Ser um de você. Ser parte tua e te ter como parte de mim.
Corro atrás do ópio. Tu passas longe. Por medo, talvez. Prefere a vida à morte. E nunca pensou na linha tênue entre uma coisa e outra. Ao menos no ópio eu encontraria o meu próprio veneno. Cansei de envenenar-me de você. Humano. Desprezível. Larga esta cara e segura a minha mão. Quem sabe alguma percepção lhe venha à cabeça e perceba. Sim, quem sabe você perceba que estamos juntos nessa solidão. Tua vida me deprime. E decerto, minha morte lhe traz pena. Nenhum de nós está então completo. Portanto combinemos: Vives por mim, que morro por ti.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Papái

Sofia sabia que seu pai nunca havia esquecido sua mãe. Besteira achar que as crianças não são capazes de perceber fragilidades dos adultos. Ela percebia muito mais que a maioria das pessoas. Amava seu pai mais que tudo, e ele retribuía sempre que podia.
Ele a levava para passear no parque. Dizia que antes dela nascer, sua mãe sempre comentava que sua pequena Sofia deveria fugir dessa vida dos vídeos e dos lugares fechados. Ele seguia todos os desejos de sua mãe antes de sua morte. Publicara seus versos e até fazia companhia aos seus pais, durante sua eterna ausência. Acabava que ele vivia mais por ela do que por ele mesmo. Seus próprios pais ficaram esquecidos. Justificava para pequena Sofia (como se ela compreendesse essas complicações que os adultos sempre arranjavam uns com os outros) dizendo que eles também preferiam que ele ficasse longe. Que nunca concordaram com seu casamento, e que eram dois "caretas" (Sofia ria) de marca maior, e que não aprovavam seu estilo de vida.
Sofia se divertia em silêncio, inventado em sua cabeça seus avós paternos os quais nunca chegaria a conhecer. Um casal de velhos loucos que destruíam as flores, quebravam bicicletas, e proibiam as crianças de mascarem chicletes. Tudo isso com olhos vesgos, boca torta, uma porção de verrugas na pele e sorrisos altos e assustadores. É melhor mesmo que papai se mantenha longe deles, pensava.
Sofia já sabia algumas palavras, e cada dia aprendia algo novo. Mas sofria. Não havia nada mais difícil para ela do que compreender as letras. Ela queria escrever cada palavra do jeito mais bonito. E sempre que a repreendiam, chorava para seu pai com um complexo de inferioridade que nenhuma outra criança jamais deveria experimentar. Papai então resolveu ajudá-la. Afinal, como uma filha de dois poetas poderia não se dar bem com palavras? Aquilo não estava certo, dizia ele.
-Diga, Sofia, o que sabe sobre acentos?
Ela olhava para seu pai com uma resposta presa nos lábios, com medo de errar.
-Sofia, me diz, você sabe desse acento aqui?
E desenhou um acento agudo num papel em branco. Ela fez que sim com a cabeça.
-Então, em qual palavra você coloca esse desenho da linha torta?
-Água.
-Sim! Viu só. Vou te ensinar mais algumas palavras acentuadas, tudo bem?
Ela então só concordava com a cabeça. Ele começou a escrever algumas palavras no papel: água, árvore, mamãe, pássaro, nenê, sábado, maçã, pêssego, idéia. Deu o papel pra ela e deixou que ela ficasse lendo e relendo. De repente, resolveu falar algo.
-Então, o que achou das palavras?
Sorrindo, Sofia disse que gostou.
-É, Sofi, pensa só... os acentos servem como pequenos enfeites às palavras.
Ela encontrou então o que precisava: uma forma de enfeitar as palavras. Mais liberdade, acreditava. Outras aulas foram dadas, do mesmo modo, pelo seu pai. Ele era um herói, claro. Tão facilmente ele lhe acordava para o lado mágico das palavras, que nem as correções da professora a chateavam mais. Ele era lindo, porque nunca deixaria mamãe desaparecer, porque colhia flores pra Sofia quase sempre, porque a ensinara a andar de bicicleta, porque ele a ajudou a dar sua primeira estrelinha, porque ele fazia tudo desse jeito mágico e fácil que tanto agradava Sofia.
Um dia, sua professora pediu pras crianças que escrevessem alguma coisa sobre alguém da família. Sofia não tinha dúvidas que ia escrever sobre seu pai. Escreveu então, entre palavras tortas e erros perdoáveis: "Papái ele merece todos os asentos do mundo"

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

D. Vontade e d. Lágrima

Um belo dia, a Vontade de Chorar se separou da Lágrima Real. O problema era a saudade que a dona Vontade sentia da dona Lágrima. Quanto mais tempo dona Lágrima ficava longe, mais dona Vontade suspirava de solidão, e gritava por Lágrima em todo lugar. A Lágrima não vinha. Apenas vez ou outra resolvia fazer uma ligação curta pra casa. Mas essas ligações curtíssimas não acalmavam dona Vontade, que ficava ainda mais aflita. "O que acontece comigo, que não consigo recuperar minha companheira que outrora fora tão fiel a mim?"
Pobre dona Vontade...

E o pior é que agora preciso ficar suportando suas lamúrias dentro de mim, e sofro junto. Mas relaxe, Vontade, imagino que eu não vá te largar tão cedo.

Aos pés do espelho.


Deixe-me fingir minha sanidade. Não tem consciência alguma do que me fez, não é mesmo? Você, com essas ilusões carregadas de realidade... Você, que me enganou. Como um cego que cai num buraco, não podia enxergar suas falsidades, tinha certeza que ali havia mais que vão. Mas não. Não. E agora, ainda reclama quando te olho no rosto e digo que não lhe quero mais ao meu lado - quando ambas sabemos que isso não passa de uma tentativa estúpida de imitar você? Deixe-me fazer do jeito que quiser, deixe-me fingir que você não está mais em mim. Pois não te quero. Você me lembra pessoas que não gosto. A obviedade as vezes me faz pensar que, perto de você, me tornarei uma delas. Fria e esquecida. Largue de mim pois já percebi que você não presta.

Respira e solta.

Chora, encolhida.

Volta-se novamente ao espelho


Porque choras comigo?