segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Pianoforte

Ele era um moço rico, com seus 30 anos. Formou-se em medicina como foi pedido. Casou-se com uma mulher direita como haviam encomendado. Mudou-se para a casa ao lado, que lhe fora construída. Continuava a lecionar piano por prazer. Era sua maneira de dividir seu único amor.
Seus alunos não aprendiam mais com Ele as notas musicais. Aprendiam a ver tons de cores pelo mundo através do sol. Coloriam a vida em grandes teatros com sis e mis. Eram já artistas, eram já maduros. Mas em aulas com aquele jovem doutor, sentiam inspiração, e inspiravam. Ele nunca tocou em teatro, reservando noites bem dormidas para o consultório pela manhã. Mas sabia que parte de seus fás e dós percorriam o público de seus artistas formados. Aprender música não teria um fim. E não se sabe se era aluno ou professor quem mais necessitava de tantos rés e lás.
Certo dia, um certo senhor de idade, companheiro de seu pai, bateu à sua porta. De grande família e fama dentro daquela cidadezinha de anos atrás. Sério, disse que precisava de um serviço. Queria aulas para sua filha que completava 20 anos e que mostrou súbito interesse musical depois de voltar da cidade grande. Porém, completamente inexperiente, a pequena, repetia o senhor, com grande afeição paternal. Ele já havia observado a tal menina. Passava horas na praça com outros jovens. Sorria risos largos com outras meninas aparentemente tolas. Ele não ousaria negar o pedido. Primeiramente, não se nega algo àquele senhor. E em segundo lugar, ficou curioso para entender no que aquele interesse musical consistia. Pensava que não iria longe demais. Ao menos, não tão longe quanto Ele costumava ir.
Chegou em seu primeiro dia de aula. A tal menina, batizada Emília, abriu a porta para Ele. Conduziu-o até um pequeno cômodo onde estava isolado um grande piano de cauda. Desculpou-se pela poeira. Disse que desde pequena nunca teve muito apreço pelo instrumento. Até assistir um concerto de Mozart quando foi estudar em São Paulo. Suas mãos tremiam e sua voz oscilava. Provavelmente sabia que o tal moço não costumava aceitar alunos sem preparo. Ela continuava olhando para Ele, esperando que Ele dissesse algo. Ele apenas sentou-se à beirada do piano, soprou levemente sua superfície, posicionou seus dedos sobre as notas, e começou a tocar Allegro Maestoso, em lá menor. Emília continuou de pé ao seu lado, calada. E assim foi, por mais tantas aulas. Ele chegava, tocava pedaços de Mozart, Beethoven e Bach. E ia embora.
Certo dia, Emília resolveu falar algo além do que a boa conduta pedia. Reclamou. Sentou-se em um banquinho ao lado do piano, e disse não entender como ela poderia aprender um instrumento sem nem mesmo tocá-lo. Como sua educação era tamanha, acrescentou que adorava escutá-lo tocar, mas que não era para isso que lhe haviam chamado. Ele levantou-se, e falou para que ela sentasse em seu lugar. Emília obedeceu. Ele acendeu um cigarro. Ela olhava para Ele esperando um novo comando. Ele deu uma volta na sala, aproximou-se dela por trás, e tapou seus olhos com ambas as mãos. "Se não suporta mais me ver tocar, pare de esperar qualquer coisa de mim. Vamos, esqueça o que vês. Coloca as mãos sobre o piano." E assim, vendada, seus dedos longos tocaram as teclas do instrumento. O primeiro contato. Pouco depois, Ele disse que já estava em sua hora de ir, e que só voltaria a dar aulas à jovem na semana seguinte. Enquanto isso, Ele disse, conheça-o melhor. Desligue a luz do quarto, experimente seus sons.
A semana que se passou perturbou ambos. Ele não sabia se aquilo daria certo. E Emília, obediente, só temia que estivesse fazendo algo errado. Um na mente do outro. Os dois duvidosos e incertos. Até que chegou a segunda-feira da próxima semana, e Ele voltou à casa dela. Espantado, dessa vez viu ela sorridente como quem estava ansiosa à sua chegada. Apressaram-se para o pequeno cômodo, sem dizer muitas palavras. Ela posicionou-se à frente do piano, e esboçou um conjunto de 5 notas harmonizadas, sem esperar que Ele lhe desse qualquer ordem. E assim, por muitas aulas seguintes, Ele começou a ensinar o nome de cada nota tocada, mas antes sentida.
Aos poucos, se entendiam. Nenhum deles sentia falta de verbos ou palavras completas. Às vezes, Ele lhe dava lições para cumprir. Subjetivas, como a música era, afinal. Ele levava gravações de piano de partes distantes do mundo, e passavam algumas aulas apenas apreciando-as. Aos poucos, ela já sabia esboçar Fur Elise. Aos poucos, Ele foi deixando que suas mãos tocassem as dela. Depois, já se cumprimentavam diariamente com abraços silenciosos. Deixavam os sons para as cordas percutirem.
Para o desagrado de seus antigos alunos, decidiu joga-los ao mundo. Não precisam mais de mim, repetia Ele. Mas sabia, no fundo, que era Ele quem não precisava mais daquilo. Emília tornara-se sua nova obsessão. E foi desconfiando, devagar, que encontrara um segundo amor. Em algumas aulas, ao som de Chopin, apenas sentavam-se em um sofá que acrescentaram ao quarto. E essas aulas se tornavam cada vez mais constantes. E Ele ousava sentar-se cada vez mais próximo dela.
Alimentaram-se de música e de rotina por anos. Às vezes podia-se notar o som de beijos por cima de uma obra de Debussy. Ele esquecera-se como havia se apaixonado pela música. Ela não sabia se estava apaixonada por Ele. E foi no meio de tantos esquecimentos e incertezas, que as emoções chegaram à flor da pele. Alimentadas pelo som, e demonstradas com o tato. Mas foram os olhos dele que arderam quando a avistou na praça ao lado de um outro homem. Ela parecia infeliz. O homem, contente. E Ele... Bom, Ele preferiu fechar os olhos. E não soube caminhar no dia seguinte até a casa dela.
Talvez ela já imaginasse sua ausência, pois nesse mesmo dia, bateram à sua porta e entregaram um recado em um pedaço de papel para Ele.

"Para ti, que me entregou seu amor.
Sinceramente sinto que meu pai tenha arranjado-me um casamento. Só enviarei essa carta caso você não apareça esta tarde. E se assim tiver acontecido, acredito ser melhor acabarmos com nossas aulas. Agradeço-lhe por tudo que fez por mim. Mas queria explicar-lhe que minha paixão era baseada na tua. E eu esperava que seu amor à música nunca fosse sobreposto. Sua ausência, tenha certeza, me incomoda muito no momento. Mas me incomoda mais não ter aqui comigo teu Amor Maior, teu Primeiro Amor; que eu adorava sentir. Fazia-me arrepiar os pêlos da nuca. E se agora não estás aqui, provavelmente este Amor que era seu antes de mim, já não é mais tão imenso quanto eu gostava de imaginar. Enquanto fomos capazes de compartilha-lo, tudo na minha vida era Seu Som.
Um beijo em Sol Maior.
De sua aluna, Emília."

Um comentário:

Renato Mateus disse...

Parei minhas leituras da política atual depois de um pedantismo no twitter, e me deparo com seu texto,que ecooam sons,palavras,sentimentos.

Gostei muito do texto. Em geral gosto do que você escreve.Gosto de tentar perceber como você sente o mundo.